HCIAS Blogcast: Inovação Digital no Ensino de Língua Portuguesa
In the latest episode of the HCIAS podcast, Dr. Rodrigo Schaefer, Humboldt-Universität, Berlin, joins Marian Orjuela and Dr. Marília Pinheiro Pereira of the Leitorado Brasileiro Guimarães Rosa Heidelberg to explore the role of digital technologies in teaching Portuguese. They discuss intercultural dimensions, curriculum adaptation, and projects fostering global connections in educational settings, sharing insights from academic research as well as practical tips for educators.
The following transcript has been edited for length and clarity
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Marília Pinheiro Pereira and Rodrigo Schaefer [L-R]. Image credit: HCIAS.
Então, vamos começar. Como o Marian disse, a nossa temática hoje é sobre o papel das tecnologias digitais no ensino de língua portuguesa, no contexto de internacionalização. E, pensando sobre isso, as tecnologias digitais vêm ganhando cada vez mais espaço em diferentes contextos de atuação, e também na educação escolar e na vida acadêmica, universitária.
Eu vi recentemente que você lançou um artigo intitulado Uma Proposta Teórica Metodológica para o Desenvolvimento da Competência Intercultural Mediante a Literatura no Contexto da Internacionalização Curricular.
Eu achei esse tema muito interessante, sobretudo porque você alia a teoria com a prática nesse artigo. Mas, antes de falarmos sobre essa experiência que você mencionou no artigo, achei importante entendermos alguns conceitos que você aborda. Você poderia explicar para a gente um pouco mais o que é a internacionalização?
Rodrigo: Sim, claro. A internacionalização, essencialmente, diz respeito à aplicação de dimensões culturais, interculturais, internacionais e globais no ensino e aprendizado de línguas. Ou então, nem sempre relacionada exclusivamente ao contexto de ensino e aprendizado de línguas, mas envolve uma dimensão que vai além da mobilidade acadêmica estudantil, que é apenas uma das facetas ou caminhos para se internacionalizar.
Ou seja, essa abordagem intercultural, essa dimensão intercultural e também global, ou essas dimensões, são introduzidas no currículo. É a partir do currículo que se oferecem às instituições oportunidades de internacionalização.
Marília: Currículo ou currículo acadêmico?
Rodrigo: Currículo acadêmico, sim. Ou seja, há diferentes vias para se internacionalizar, e o currículo é uma delas.
Marília: Você poderia explicar um pouquinho como seria essa internacionalização do currículo?
Rodrigo: Sim, com certeza. Vou explicar com um exemplo prático, por meio de uma ação que desenvolvo no Instituto Federal Catarinense. É um projeto de extensão que reúne estuPortuguesedantes de várias nacionalidades e também, claro, meus estudantes do Instituto Federal, que são da graduação e do ensino médio.
Nesse projeto de extensão, aberto para a comunidade, eles têm a oportunidade de discutir diferentes temáticas, incluindo questões relacionadas ao racismo, inclusão social, problemas globais e ambientais, enquanto desenvolvem habilidades linguísticas.
Ou seja, muitas vezes, o currículo não contempla essa dimensão intercultural ou internacional. Por isso, desenvolvo projetos para internacionalizar não só a instituição como um todo, mas também a visão e as perspectivas dos alunos. Esses alunos, muitas vezes, estão restritos a um contexto mais imediato, que no caso seria o Instituto Federal Catarinense e, mais especificamente, a cidade de Brusque, onde eu atuo.
Marília: Ah, que interessante. Então, esses projetos são projetos de extensão e estão abertos também à comunidade ou apenas à escola ou universidade?
Rodrigo: Eles estão abertos à comunidade de forma bem ampla. Como eu mencionei antes, há vários participantes: meus estudantes, professores da instituição, estudantes de Brusque, de Santa Catarina, de outros estados do país e também de várias partes do mundo. Cito, por exemplo, três países: Inglaterra, Cuba e Espanha.
Por meio de aulas, ou melhor, de sessões de conversação em língua inglesa e também em outras línguas — depende muito do projeto e do ano — promovemos discussões sobre diferentes temáticas.
Marília: Muito, muito interessante. Eu vi também no seu artigo que você menciona a internacionalização em casa. Achei isso muito interessante. Você poderia falar um pouco mais sobre o que é essa internacionalização em casa?
Rodrigo: Com certeza. A internacionalização em casa é uma das formas de internacionalizar. Na literatura especializada, também é utilizado o termo “internacionalização doméstica”. Em inglês, “domestic,” mas eu prefiro usar “internacionalização em casa,” pois converge com a terminologia da maioria dos autores.
Nada mais é do que aproveitarmos o próprio contexto das instituições educacionais para internacionalizar de acordo com a realidade da própria instituição. Por exemplo, em Brusque, percebo que, infelizmente, a maioria dos estudantes não tem oportunidade de ir para outro país estudar ou realizar pesquisas, seja por três ou seis meses. Isso porque envolve custos e uma estrutura econômica que muitos alunos não possuem.
Essa visão de internacionalização amplia o alcance e oferece oportunidades para mais estudantes, utilizando as tecnologias digitais que estão à nossa disposição.
Marília: Que fantástico. Então, me parece que a internacionalização em casa é uma ferramenta muito democrática, porque permite que estudantes com baixo poder aquisitivo, por exemplo, possam ter contato com outras culturas e até utilizar outras línguas por meio da interação em ambientes virtuais. É isso? Perfeito. Então, pergunto: de que forma os recursos tecnológicos ajudam efetivamente ou permitem que os estudantes aprimorem o aprendizado, especialmente o de línguas estrangeiras, considerando a baixa carga horária nas instituições de ensino?
Rodrigo: Essa é uma excelente pergunta e algo que considerei desde que comecei a me preocupar com as tecnologias, ainda antes da pandemia. Sempre digo que a pandemia talvez tenha acelerado o processo de introdução de tecnologias digitais, mas não foi o único fator responsável. Antes disso, já tínhamos iniciativas e aplicávamos essas tecnologias. E de que forma podemos garantir que o uso das tecnologias seja significativo para os estudantes? Eu vejo que um caminho é integrá-las ao andamento das aulas do professor. Ou seja, as tecnologias não devem ser apenas um recurso complementar, mas precisam estar integradas no cerne das atividades. Devem ser algo compreensível, orgânico e planejado para o desenvolvimento do aprendizado. Os estudantes precisam perceber a relevância dessas atividades para seu aprendizado.
Marília: Muito bom. E como o professor que quer utilizar as tecnologias digitais em sala de aula pode fazer isso? Você tem alguma experiência que possa relatar?
Rodrigo: Sim. Talvez o primeiro passo seja uma reflexão por parte do professor sobre como aplicar essas atividades, quais são os objetivos e as implicações pedagógicas, metodológicas e, às vezes, até epistemológicas. Isso depende muito da teoria que embasa a prática.
O que é importante destacar é que não se trata de aplicar tecnologias digitais apenas para criar uma ideia de inovação. Como se diz frequentemente na literatura, a tecnologia não vai “salvar” ou resolver todos os problemas da educação. Ela é simplesmente um meio para atingir objetivos pedagógicos.
Portanto, o primeiro passo seria essa reflexão: é realmente importante usar tecnologia para essa finalidade? Será que o objetivo pode ser alcançado sem a introdução de tecnologias digitais? Com essa clareza, o trabalho do professor fica mais direcionado.
Marília: Eu acho que, para os alunos, o processo é mais fácil, porque eles já estão tão conectados e acostumados ao digital.
Rodrigo: Sim, principalmente os mais jovens. Mas, como você destacou, isso também depende muito das orientações teóricas do professor. Muitos professores têm outros objetivos pedagógicos e metodológicos e, dependendo da faixa etária, podem não estar tão próximos da aplicação de tecnologias. Isso não significa que o trabalho será melhor ou pior.
O que precisamos avaliar é o impacto que essas ferramentas terão no ensino e aprendizado.
Marília: Nesse artigo, você mencionou a questão das histórias digitais. Como elas se relacionam com sua pesquisa e com o projeto que você desenvolve?
Rodrigo: Histórias digitais, para conceituar brevemente, são a introdução de tecnologias e recursos digitais na antiga prática da humanidade de contar histórias. Então, digamos que as histórias digitais são uma versão moderna daquilo que já está na nossa essência como seres humanos: contar histórias. Nos meus trabalhos, fundamentados pela literatura especializada, levo meus alunos a refletirem sobre temáticas atuais ou, dependendo do projeto, a escreverem histórias sobre si mesmos, enquanto desenvolvem habilidades linguísticas.
Por exemplo, durante a pandemia, desenvolvi um projeto com estudantes de nível iniciante de inglês. Eles se apresentaram utilizando estruturas verbais básicas e organizacionais para se expressarem em língua inglesa.
O interessante é que, posteriormente, eles apresentaram essas histórias para um público internacional, que incluía falantes de países de língua inglesa, falantes de português e também pessoas que falavam inglês como segunda língua. Foi uma oportunidade para compartilharem suas histórias enquanto ampliavam seus horizontes culturais e linguísticos.
Marília: Nossa, então, na verdade, isso chega a ser até multilíngue, não é? Você consegue abranger diversas línguas.
Rodrigo: Isso, exatamente. Multilíngue e, ao mesmo tempo, recuperando um conceito que mencionamos antes: interculturalidade. Assim, revelamos uma das dimensões da internacionalização, que é a aplicação desse elemento intercultural nas atividades do currículo das instituições.
Marília: Muito bom. E você tem relatos ou experiências sobre como os alunos recebem essas atividades? O que eles costumam dizer sobre suas práticas interculturais?
Rodrigo: Sim, tenho, inclusive, algumas dessas práticas já estão documentadas. Tenho vários artigos publicados baseados nas percepções dos estudantes, nos quais faço análise discursiva dos posicionamentos e opiniões deles.
Na maioria dos casos, eles reconhecem o potencial dessas atividades para o aprendizado intercultural. A oportunidade de estar em contato com pessoas de diferentes partes do mundo, discutir temáticas diversas, enquanto aprendem ou desenvolvem a língua, é muito valorizada por eles.
Ao mesmo tempo, há vários desafios. Não é simplesmente introduzir as tecnologias, mas também avaliar os impactos, que às vezes podem ser negativos. Por exemplo, muitas vezes não temos uma carga horária satisfatória para conduzir essas atividades, pois elas demandam bastante trabalho.
Para o professor, exige tempo, preparo e também a preparação dos estudantes. É preciso mostrar para eles a importância dessas atividades para o aprendizado. E, muitas vezes, é mais prático para o professor trabalhar com análise linguística do que com atividades desse tipo, porque estas exigem muito mais planejamento e dedicação.
Marília: É possível, inclusive, fazer um projeto interdisciplinar, não é? Nesse sentido, vocês realizam projetos interdisciplinares?
Rodrigo: Sim, no Instituto Federal já desenvolvi trabalhos com professores da área de gastronomia e também da área de artes. Dependendo dos objetivos, é possível extrapolar essa preocupação exclusiva com a língua. Já realizamos projetos interdisciplinares e, inclusive, utilizamos o termo transdisciplinar.
Eu diria que a própria essência dessas atividades, como projetos de histórias digitais e projetos envolvendo telecolaboração, já é interdisciplinar. Telecolaboração, para esclarecer, é o contato entre pessoas geograficamente distantes no contexto do aprendizado de línguas ou outras disciplinas.
A natureza dessas atividades vai muito além dos aspectos linguísticos. Isso não é uma crítica à análise linguística ou ao estudo de elementos gramaticais, que são importantes. Mas, na atualidade, sabemos que isso não é suficiente. Precisamos de prática, de conversação, e de preparar os alunos para se posicionarem, seja na língua materna ou em língua estrangeira, com pessoas de outros horizontes culturais. Isso desenvolve não apenas habilidades linguísticas, mas também a competência intercultural.
Marília: Com certeza. Acho que todo mundo sai ganhando: as instituições de ensino envolvidas, os alunos, os professores, todos. Pensando nisso, qual você diria que é o maior desafio para a internacionalização das instituições educacionais brasileiras nesse momento?
Rodrigo: Bom, eu diria que há vários desafios. Especificamente na instituição onde leciono, percebo que precisamos transcender a visão de que internacionalização se restringe à mobilidade acadêmica física. Já sabemos que é muito mais do que isso.
Essa visão, no entanto, muitas vezes fica limitada às pessoas que trabalham academicamente com o tema. De modo geral, vejo que as instituições ainda têm mais interesse na prática de internacionalizar por meio da mobilidade acadêmica, o que já é feito na Europa desde os séculos XIII e XIV. Mas hoje temos diferentes formas de internacionalizar, como pela utilização de tecnologias digitais.
Outro desafio apontado pela literatura especializada é a necessidade de implementar a visão intercultural, internacional e global no próprio ethos das instituições. Ou seja, essas dimensões precisam estar integradas no funcionamento da universidade, escola ou instituto. Não pode ser algo apenas de um professor entusiasta.
Além disso, há a questão da conexão entre diferentes atores, como professores, pesquisadores, e o corpo administrativo e técnico. É necessário haver diálogo entre os setores para que a internacionalização se torne efetiva e esteja no centro das atenções.
Caso contrário, corremos o risco de usar o termo internacionalização apenas como modismo, sem compreender suas reais consequências e implicações. Isso pode levar a um uso superficial, sem impacto transformador.
Foi o caso, por exemplo, da interculturalidade há uns 10 anos. A interdisciplinaridade, que até hoje a gente ainda não sabe bem o que é. Temos uma noção teórica, mas quando queremos sistematizar a teoria e a prática, surgem muitas dúvidas. E o mesmo acontece com a internacionalização.
Marília: Muito bom. Realmente, nesse artigo que mencionamos no início, você destaca exatamente essa relação entre teoria e prática e como é importante unir as duas. Muito bom, Rodrigo.
Para finalizar, você está fazendo o seu pós-doutorado na Universidade de Humboldt, em Berlim. Gostaria de perguntar como tem sido o seu trabalho de pesquisa. Pode nos contar um pouco sobre essa experiência?
Rodrigo: Sim. Recentemente, tenho desenvolvido minha pesquisa de pós-doutorado na universidade citada. Diria que esse projeto é um desdobramento dos estudos e projetos que já vinha conduzindo anteriormente no Brasil, desde o mestrado. Trabalho com essa temática da cultura e da interculturalidade desde então.
Com o passar do tempo, fui me envolvendo cada vez mais, e o projeto que estou desenvolvendo aqui é um projeto guarda-chuva. Dele derivam várias atividades, ações e intervenções para internacionalizar não somente as instituições, mas também o campo das ideias dos estudantes e da comunidade, seja acadêmica ou não acadêmica.
Uma dessas ações envolve a organização de eventos, a produção de artigos acadêmicos, e a participação em outras instituições na Alemanha e fora dela, como palestras e mesas-redondas. O cerne do meu projeto é a aplicação de atividades no ensino-aprendizagem de português para os alunos da Universidade de Humboldt, que aprendem a língua como estrangeira ou adicional.
Meu foco também está na internacionalização da própria língua portuguesa e no desenvolvimento de habilidades além das linguísticas, relacionadas ao aprendizado de línguas. Tem sido uma experiência muito interessante e compensadora.
Além disso, tenho refletido sobre desafios, como transcender a visão de que a variante do português de Portugal é a única legitimada ou reconhecida. Percebo que, em geral, os estudantes preferem se expressar na variante portuguesa, o que é compreensível, já que estão na Europa e possivelmente têm maior contato com pessoas de Portugal.
Contudo, procuro introduzir a relevância de estudar outras variedades. É claro que acabo focando na minha própria variante, a brasileira, do sul do país, mas também trago outras, como as de Moçambique, Angola, e outros lugares na África e outros continentes onde o português é falado.
Então, o trato de questões morfológicas, organizacionais da língua, da sintaxe, do léxico, do discursivo e do intercultural. Que fantástico, muito bom. Eu acredito muito no português na perspectiva pluricêntrica e acho que realmente isso é um excelente caminho também de internacionalização da língua.
Eu entendo também que um dos desafios relacionados à utilização das tecnologias digitais pelos mais jovens diz respeito a como utilizar os materiais que podem ser selecionados, até que ponto podem fazer uma escolha ou outra, quais são as questões éticas envolvidas, e de que forma podem se apropriar dos diferentes recursos tecnológicos para o aprendizado. Ou seja, há diferentes recursos disponíveis, mas talvez o trabalho do professor consista justamente em orientar os estudantes, mostrar as possibilidades e também os limites.
Marília: Com certeza. Que bom, Rodrigo. Parabéns! Eu te desejo muito sucesso nessa pesquisa, nessa iniciativa, e fico já aguardando os artigos e as publicações dessa sua experiência aqui na Alemanha.
Rodrigo: Será um prazer poder compartilhar e documentar toda essa experiência, mesmo após o meu retorno ao Brasil.
Marília: Sim, então muito obrigada.
Rodrigo: Marian, eu agradeço pelo convite, por ter aberto essa oportunidade para o Leitorado Brasileiro de fazer essa apresentação, essa entrevista.
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This HCIAS Blogcast has been just a short recap of a wide-ranging and thought-provoking discussion. If you would like to learn more about our guest and his work, you can listen to the whole episode here.
Currently, Dr. Rodrigo Schaefer is performing research at Humboldt Universistät zu Berlin (Germany) as postdoctoral researcher with the CAPES/Humboldt Fellowship / Program. He also teaches Portuguese and English at Instituto Federal Catarinense in Brazil; his Doctorate is in English: Linguistic and Literary Studies. His research focuses are Interculturality, Internationalization and Telecollaboration.
Since November 2022, Dr. Marília Pinheiro Pereira has been a fellow of the Programa Leitorado para Instituição Universitária Estrangeira of the Brazilian government and is working at the Leitorado Brasileiro Guimarães Rosa Heidelberg, an institute of the Heidelberg Center for Ibero-American Studies.
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HCIAS Blog (January 30, 2025). HCIAS Blogcast: Inovação Digital no Ensino de Língua Portuguesa. HCIAS Blog. Retrieved September 10, 2026 from https://doi.org/10.58079/137fz
